VIOLÃO
(Sueli Costa e Paulo Cesar Pinheiro)

Um dia eu vi numa estrada
um arvoredo caído,
não era um tronco qualquer.
Era madeira de pinho
e um artesão esculpia
o corpo de uma mulher.

Depois eu vi
pela noite
o artesão nos caminhos
colhendo raios de lua.
Fazia cordas de prata
que, se esticadas, vibravam
o corpo da mulher nua.

E o artesão, finalmente,
nesta mulher de madeira
botou o seu coração
e lhe apertou contra o peito
e deu-lhe um nome bonito
e assim nasceu o violão.


Helio Delmiro: violão

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VÔ ALFREDO
(Guinga e Aldir Blanc)

Vô Alfredo
tinha febre lá na língua do frê
e danava a dançar o frevo
numa afrição africana,
uma macumba fremente
que não se vê mais não.
Minha língua se soltava do freio
e falava em tesão
hum, hum, hum, hum...
Ai, ai, como era bom
pular no cordão.

Friendship from Recife
sifu se o Mister Pou,
frajola pr'arriba da gente
com seu fru-fru fricoteiro,
um canhão de ketchup,
em onda de tubarão.
Minha língua manda à merda esse freio,
três veis salve o tesão
hum, hum, hum, hum...
Ai, ai, frevo e baião,
toada e sambão.

Canta o pau, acorda o zabumba
freme, freme o sertão.
Canarim, canarim, eu desfraldo
o frevo no coração.
Canarim, canarim, fraternal
fratura a fronteira, irmão.
Vovô Alfredo, eu vou ao frevo
frevendo de emoção.


Guinga: violão
Chiquito Braga: Cavaquinho
Marcos Suzano: Percussão

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FACA
(Fatima Guedes)

O seu nome é uma faca
me dilacerando.
O segredo é uma faca
de dois gumes:
morro de paixão,
morro de ciúmes.

Você vive na estrela
incomunicável.
Você fala comigo
e nem me vê.
Preciso olhar o céu
pra compreender você.

O seu nome é uma faca,
lâmina afiada
enterrada no peito até o fim.
É melhor morrer de uma vez,
eu estou jogada a seus pés,
tenha dó de mim.


Claudio Jorge: violão
Sizão Machado: contrabaixo acústico
Itamar Assière: teclados
Fatima Guedes: assovio
Arranjo: Claudio Jorge

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O SILÊNCIO DAS ESTRELAS
(Lenine e Dudu Falcão)

Solidão,
no silêncio das estrelas
a ilusão.
Eu pensei que tinha o mundo
em minhas mãos,
feito um Deus
que amanhece mortal.

E assim,
repetindo os mesmos erros,
dói em mim
ver que toda essa procura
não tem fim.
O que é que eu procuro afinal?
Um sinal,
uma porta pro infinito irreal.
O que não pode ser dito,
afinal,
ser um homem em busca de mais.
Afinal,
feito estrelas que brilham em paz.


Lenine: violão e vocal
Arthur Maia; contrabaixo
Marcos Suzano: percussão
Gilson Peranzzetta: acordeon

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A ROTA DO INDIVÍDUO
(Djavan e Orlando Moraes)

Mera luz
que invade a tarde cinzenta,
e algumas folhas
deitam sobre a estrada.
O frio é o agasalho que esquenta
o coração gelado quando venta,
movendo a água abandonada.

Restos de sonho
sobre um novo dia.
Amores nos vagões,
vagões nos trilhos,
parece que quem parte é a ferrovia
que, mesmo não te vendo, te vigia
feito mãe, feito mãe
que dorme olhando os filhos
com os olhos na estrada.

E no mistério solitário da penugem
vê-se a vida correndo parada,
como se não existisse chegada.
Na tarde distante,
ferrugem ou nada.


Djavan: violão
Arthur Maia: contrabaixo
Marcio Malard: violoncelo
David Chew: violoncelo
Zé Nogueira: sax soprano
Arranjo: Gilson Peranzzetta

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DILUVIANAS
(Guinga e aldir Blanc)

Pra bom entendedor
Noel, o radical
fez o Brasil sair
em sangue vivo pela boca.
E com que roupa eu vou
visitar catacumbas,
cruzar com Villa-Lobos
nos terreiros de macumba.

Pra bom entendedor
da lenda original,
Moema dissolveu-se
quase igual a um sonrisal.
E vi Caramuru
num terno da Ducal
pregar em Turiaçu,
na igreja pentecostal.

Pra bom entendedor
o novo carnaval
é o fogo se espalhando
entre os cães siberianos.
E com o passar dos anos
como é que vai ser?
Talvez o pó vermelho
dos desertos marcianos.

Pra bom entendedor
o trailer do final
matilhas de crianças
varrem as praias tropicastas.
Se alastra entre os gurus
visões diluvianas.
Carmem Miranda teme
que não haja mais bananas.


Guinga: violão
Gilson peranzzett: piano
Pirulito: percussão

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ARTIGO DE LUXO
(Sergio Santos e Paulo Cesar Pinheiro)

Samba, agora,
é artigo de luxo
é luxo só
Quem faz samba
tem sempre um catucho
na manga do paletó
Ele aguenta o repuxo, bambeia,
cai no chão, sacode o pó,
Mesmo fora da média,
da mídia, da moda, da multi,
na manha, na moita,
ele sai do mocó,
chega e já vai dando um nó.
Todo moreno, quando passa,
pode estar sambando
Toda morena, caminhando
mexe com o quadril
É que o samba tá no sangue
desse povo,
tá no coração
de onde ele nunca saiu.
Dois por quatro
é a cadência e o compasso
do chão do Brasil.


Claudio Jorge: violão
Luizão Maia: contrabaixo
Itamar Assière: piano e teclados
Armando Marçal: percussão
Pirulito: percussão
Ovídio Brito: percussão
Arranjo: Itamar Assière

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SILENCIOSA
(Fatima Guedes)

Silenciosa, casa vazia,
mormaço, quase meio-dia.
A morena deitou
na rede e balança.
ê, ô...

Casa deserta,
olhos fechando
quase dormindo, cochilando.
A morena deitou
na rede e balança
ê, ô...

Baiana de Gauguin,
mulata preguiçosa,
apanhou na cozinha a maçã,
voltou silenciosa.
Lançou distante
um olhar profundo,
Nada acontece nesse mundo.
A morena deitou
na rede e balança
ê...ô...


Bororó: contrabaixo, violão, viola
Itamar Assière: teclados
Marcio Malard: violoncelo
Marcos Suzano: percussão
Arranjo: Bororó

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DESTINO BOCAIÚVA
(Guinga e Aldir Blanc)

E aí, sou de Quintino Bocaiúva
subúrbio e eu é feito assim
a mão e a luva.
Eu sou de Bocaiúva e dou de zero,
manjo o canário, tico-tico e quero-quero.
O clube de Quintino
é parecido com a muvuca da gente,
que lá Fernando é boy
não manda nada
e o Toninho se empossou presidente.
Então, sai da frente.

Por isso, eu vou tinindo pra Quintino,
naquela boca está o mapa do tesouro.
Meu tino é no Quintino de menino,
é pipa, é bola, mariola
e lá tem choro.
A cólera me fez mais de uma vez
Bornhausen em pleno salão.
Eu já curei donzela de espinhela,
de sair pela janela, varão,
com as calças na mão.

Cafetão de gravata
é de Quintino Bocaiúva,
invasão de barata
isso acontece se chover,
Capitão de fragata
em Bocaiúva também dá
Um montão de babaca
nasce em todo lugar.

Bocaiúva me diz
que um bom exemplo pro país
é o melhor carnaval.
Quero aqui repetir
que o nosso quadro social
vai da tribuna à geral.

Em Quintino
é que eu sei respirar,
o bicão natural não vai lá,
porque lá em Quintino
é destino, não dá
pr'outro cretino aprontar.


Guinga: violão e voz
Marcos Suzano: percussão
Netinho: clarinete

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RESTOS DE UM NAUFRÁGIO
(Fatima Guedes)

Sussurrante é teu amor,
um escafandrista
tateando em mim
dramas a perder de vista,
o dom de acariciar,
profundamente feito o mar,
remexendo o que o naufragou
lentamente na solidão.

Falsa paz submarina,
jaz entre os corais,
num barco submerso,
o que eu não confesso.
Iça do abismo
ardor, orgulho,
novos tanques de mergulho
pra poder assim me resgatar
do frio verde.
Por paixão eu volto à tona,
e Atlântida entre as ondas,
solene, linda sai do mar.


Moacyr Luz: violão
Luizão Maia: contrabaixo
Itamar Assière: piano e teclados
Paulinho Trumpete: flugelhorn
Arranjo: Itamar Assière

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SANTA BÁRBARA
(Fatima Guedes)

Santa Bárbara dos tempos violentos,
vosso rosto me aparece num clarão,
quando um raio rasga
a imensa escuridão.

Muitos ventos, muitos ventos
passam por meu coração,
na carícia quase bruta
do poder de vossa mão.
Senhora me iluminai,
clareai meus pensamentos,
Santa Bárbara
dos tempos violentos.

Vejo em vossos elementos,
a chuva não vai parar
até ter deixado limpos
meu corpo e minha alma.
Dona dos meus temporais,
Senhora de olhos cinzentos,
Santa Bárbara dos tempos violentos.


Claudio Jorge: violão
Sizão Machado: contrabaixo acústico
Pirulito: percussão
Ovídio Brito: percussão
Cordas: Rio Cello Ensemble (Márcio Malard, David Chew, Hugo Pilger, Fábio Presgrave,
Saulo Moura, Fernando Bru, Diana Lacerda e Eduardo Guaita)
Arranjo de Cordas: Gilson Peranzzetta

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DEIXA FALAR
(Fatima Guedes)

Todo mundo pensa
que eu tenho um xodó.
Deixa falar, será que é?
Mas eu dou o meu amor
pra quem eu quiser
eu dou pra quem eu quiser.

Todo mundo pensa
que um xodó é asim
chegar, ficar, grudar ni mim.
Mas, assim, grudadinha,
eu sou mais maxixeira,
eu sou a fina flor
da mulher brasileira.

Todo mundo pensa
que eu gosto de você.
Deixa falar, que eu quero ver
do carinho que eu guardo
ninguém vai saber
ninguém jamais vai saber.

Minha vida é um maxixe
e maxixe é assim
Chegar, ficar, grudar ni mim.
Mas se eu tenho um xodó
que me faz tão brejeira
Eu sou a fina flor
da mulher brasileira.


Bororó: contrabaixo, violão, viola e guitarra
Armando Marçal: percussão
Marcos Suzano: percussão
Itamar Assière: teclados
Arranjo: Bororó

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SETE ESTRELAS
(Guinga e Aldir Blanc)

Eu sou a música da gente
quando nua e crua,
escorro do nariz do pobre
quando ele se assua,
sou a Carolina na janela,
desejando a rua,
com a solitude eu ando acompanhado,
cada virtude minha é um pecado.

Varejeira come lixo
feito creme chantili
e que mistério tem aí?
E qual lição que eu aprendi?

Sou o cachorro na viela
cobiçando a lua,
sou o vermelho da donzela
quando ela menstrua,
o amassado na baixela feito com gazua.
A solitude eu quis por companheira,
cada mentira minha é verdadeira.

Trepadeira borda folha
feito ponto macramê,
é um mistério de se ver,
é uma lição pra se aprender,
pior que a morte é desviver.

Varejeira faz zoeira
no monturo do meu coração,
sete estrelas eu quisera
sete vezes azuis, sentinelas
do meu violão,
ô...ô...

Eu sou a lágrima e o sal
que o triste chora e sua,
eu sou a fome que há na santa
quando ela jejua
e o grito doido
na garganta de uma cacatua.
Com a solitude eu ando acompanhado,
cada virtude minha é um pecado.

Varejeira come lixo
feito creme chantili
e que mistério tem aí?
E qual lição que eu aprendi?

Sou a paixão que faz sequela
quando pega e incrua,
eu sou o monstro da lagoa
quando ele flutua,
se tu disser que é a minha
eu digo que é a tua.
A solitude eu quis por companheira,
cada mentira minha é verdadeira.

Trepadeira borda folha
feito ponto macramê,
é um mistério de se ver,
é uma lição pra se aprender,
pior que a morte é desviver.

Trepadeira tece esteira
nas paredes do meu coração,
sete estrelas benfazejas,
sete vezes irmãs sertanejas
do meu violão.


Guinga: violão
Marcos Suzano: percussão
Fatima Guedes: vocais
Arranjo vocal: Bororó

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FLOR-DE-IR-EMBORA
(Fatima Guedes)

Flor de ir embora
é uma flor que se alimenta
do que a gente chora.
Rompe a terra, decidida,
flor do meu desejo
de correr o mundo afora.

Flor de sentimento
amadurecendo, aos poucos,
a minha partida.
Quando a flor abrir inteira
muda a minha vida,
esperei o tempo certo.

E lá vou eu, e lá vou eu
flor de ir embora eu vou.
Agora, esse mundo é meu.


Claudio Jorge: violão
Sizão Machado: contrabaixo acústico
Zé Carlos: flauta em sol
Itamar Assière: teclados
Arranjo: Claudio Jorge

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Ficha Técnica

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